o haras

Caruana: uma história que nascia há 40 anos

O criador Fauzet Farha dava início à concretização de um sonho de menino enquanto ajudava a escrever a história do Quarto de Milha no Brasil

O ano era 1972. Uma propriedade em Bauru, no interior de São Paulo, dava seus primeiros passos em direção à criação de cavalos Quarto de Milha, alimentando o sonho de um apaixonado por estes nobres animais.

Fauzet Farha, um homem sempre ligado ao campo e aos animais. Seu primeiro contato com o cavalo foi ainda criança quando seu pai lhe deu um mangalarga chamado Pingo. Esse menino, com seu cavalinho, sonhava alto, grandes aventuras. Ali nascia uma relação de amor a este animal, que cresceu e foi nutrida a cada nova etapa de sua vida. Na adolescência, com a prática de hipismo; na vida adulta com a realização do sonho de dedicar-se à criação de cavalos. Um sonho que, pouco a pouco, ganhou vida e passou a se chamar Caruana.

A experiência na infância com o cavalo, a prática de esportes e, posteriormente, as atividades relacionadas a essas duas paixões, como o Clube do Laço, o qual Fauzet ajudou a formar em Bauru, vieram só a confirmar o amor e o prazer do novo criador.

Já afiliado à ABQM, em 1969 – mesmo ano em que adquiriu a fazenda – Fauzet tinha contato com os sócios da associação e acompanhava os primeiros movimentos da raça no Brasil. Adquirido seus dois primeiros cavalos Quarto de Milha, Malandro e T'Bonne, Fauzet gostou dos resultados obtidos.

A dedicação à atividade foi aumentando. O mercado ainda era restrito aos apaixonados pelo Quarto de Milha, mas as boas notícias vindas dos Estados Unidos fizeram com que, em 1975, Fauzet importasse seis animais, dois garanhões (Wiggy Reed Bar e Second Bar Bando) e quatro fêmeas.

A expansão do criatório tinha começado e era apenas o ínicio.

Nos dois anos seguintes, o mercado se multiplicou. A raça conquistava cada vez mais adeptos e, em 1977, o espírito empreendedor falou mais alto. Determinado a comprar animais de qualidade, Fauzet foi ao berço da raça buscar seus novos animais. Por dias, o criador analisou as técnicas de criação e viu os animais no curral. Um potro em questão chamou a atenção por sua inteligência e despertou o interesse. Seu proprietário resistia em vendê-lo. Então, Fauzet declarou: "Só levo a tropa, se o potro for junto. O pagamento é in cash".

O resultado do tino e empenho em selecionar animais de primeira foi a importação de 77 animais: 54 novas matrizes e 23 reprodutores, a maioria fruto da Spring Creek Farm, do Texas – um grande passo rumo à consolidação de seu plantel.

Na época, a fazenda não estava preparada para receber todos esses animais. Entretanto, mais uma vez Fauzet planejou, investiu e trabalhou incansavelmente para providenciar baias rústicas, infraestrutura e know-how para a chegada da tropa. Num piscar de olhos, lá estavam os cavalos, encocheirados ou correndo nos piquetes. Um belo espetáculo!

Dois peões norte-americanos, Del e Craig, contratados ali ficaram por três meses para ensinar e orientar os funcionários da Caruana no trato dos animais – a lida era intensa: limpar as baias, alimentar os animais, higienizar e casqueá-los, soltá-los nos pastos, treiná-los na baliza, no tambor, no laço. Com o convívio, veio a amizade e grande experiências sobre o Quarto de Milha.

A partir daí, uma nova fase marcou a Caruana e a família Farha. O cavalo envolveu a todos, esposa e filhos vivenciaram de perto cada conquista e dificuldade vencida. Fauzet, Virgínia, Ana Laura, Ana Paula, Paulo, Ana Cláudia e funcionários estavam lá, conferindo de perto cada potrinho, cada cavalo que corria no pasto, a pelagem reluzindo no sol, a docilidade ou o modo arredio de cada um deles.

A aprendizagem crescia diariamente, uma nova bagagem somada à vida. Como cuidar dos cavalos, onde melhorar na criação, a troca de experiência com outros criadores, a visita de amigos e realizar os primeiros negócios com a raça.

O tempo foi passando e, da tropa americana, dois potrinhos se destacaram e foram selecionados para constituir a base genética do criatório. O potrinho que perseguiu as galinhas nos Estados Unidos e só parou quando conseguiu encurralá-las, o mesmo potrinho inteligente e habilidoso que Fauzet insistiu em importar foi um dos escolhidos. Trouble Two Times, o primeiro grande nome da Caruana. O outro potro que deu frente à linhagem qualificada foi Hayward Johnny, um cavalo que tornou-se um dos pilares do Quarto de Milha no Brasil.

II: A caminho do sucesso

A chegada de Trouble Two Times e Hayward Johnny fortalece o plantel

Paulo ainda era pequeno quando os animais chegaram à Caruana. Ele e Claudinei tinham 10 anos, brincavam o dia todo pela fazenda, subiam e desciam das árvores, corriam pelos pastos e ficavam atrás dos peões, observando todas as atividades, sem perder nada.

"Eu me lembro da chegada desses animais na fazenda. Eu dava água pros garanhões e o Trouble era pequenininho, mas já um cavalo espetacular. Todo mundo gostava muito dele e com certeza ele marcou tanto a nós como a história da Caruana", comenta Claudinei que acompanha os passos e crescimento da Caruana desde que se conhece por gente.

Os dois amigos, quase que irmãos, acompanharam, cheios de curiosidade, a vinda de tantos cavalos. Cada vez mais, Paulo foi se interessando, e Trouble marcou a entrada definitiva do, então pequeno menino, no mundo equestre. A sintonia entre eles foi instantânea.

Dócil, inteligente e habilidoso, Trouble foi a primeira e grande paixão de Paulo, considerando-o seu grande amuleto da sorte. Viajaram Brasil afora juntos para competir, participaram de várias modalidades, especialmente em Tambor e Baliza, tornando-se uma dupla imbatível, com afinidade cada vez maior. Foi com Trouble que Paulo ganhou seu primeiro campeonato e uma série de outros ao longo dos anos desta grande parceria.

"Com Trouble, Paulo foi acompanhando a rotina da fazenda, espelhando-se no pai e ficando cada dia mais próximo das atividades da Caruana e do cavalo. Acompanhava os tratadores na ordenha, na limpeza das cocheiras e demais tarefas. Antes de seguir para as pastagens, pegava sua marmita para almoçar junto a eles. Ao encerrarem o trabalho, jogavam uma boa partida de futebol. Só então Paulo voltava à casa, para um longo e necessário banho ao som das músicas que ele cantava em alto e bom som", relembra Virgínia Farha.

Os precursores de um time de campeões

Pouco a pouco Trouble Two Times e Hayward Johnny mostraram que as apostas e investimentos em suas genealogias foram, de fato, corretos. Ambos fizeram história pelas pistas com ótimas performances e, ao iniciar a vida como reprodutores, deram à Caruana o posto de um criatório cada vez mais qualificado. Foram pais de inúmeros campeões de provas de Baliza, Tambor, Rédeas e Laço em Dupla, cada um com uma caraterística particular que deu aos seus os herdeiros importantes vitórias.

Hayward Johnny (1974) chegou ao Brasil com 03 anos. Filho de Hayward Lee e Johnny Lee Owen, ele era dono de duas importantes linhagens de trabalho nos Estados Unidos. No Brasil, sagrou-se Campeão Nacional de Laço em Dupla por vários anos e, na reprodução, produziu mais de 215 filhos, com destaque para Snooper Johnny FF, Over Johnny FF, Bravo Jonhy WP e ST Juanita.

Trouble Two Times, por sua vez, destacou-se com Paulo em Tambor e Baliza e conquistou o título de Campeão Nacional em ambas as categorias, entre outros títulos que vieram a comprovar sua boa conformação e aumentaram a sua visibilidade. Filho de grandes nomes do Quarto de Milha americano, Reger's Skip e Spooky Trouble, este castanho perpetuou seu excelente pedigree na história da raça no Brasil, como pai de vários campeões nacionais e potro do futuro – sua produção ultrapassa os 400 filhos registrados na ABQM e suas filhas são consideradas algumas das melhores provedoras de campeões – e um avô de extraordinária qualidade, líder de estatísticas como avô materno.

Esses dois animais permitiram uma produção de ótima qualidade, reconhecida e desejada por outros criadores em todo território brasileiro. Essa seleção, cada vez mais aprimorada, não parou por ai.

Com foco nos mesmos interesses que seu pai, Paulo começou a colaborar nos projetos da Caruana. Juntos, formaram uma parceria fiel e equilibrada em busca de linhagens de renome para fortalecer e ampliar as atividades da fazenda. A participação na importação de quase 100 equinos, possibilitou-lhes conhecer, profundamente, os trâmites burocráticos de importação assim como adquirir know-how e feeling na seleção e criação de animais.

No início dos anos 90 o mercado ainda era pequeno mas estava em ebulição e a Caruana logo foi reconhecida como uma marca de referência nacional na raça. "Nesta época começaram a surgir mais investidores, os criadores focaram mais nas modalidades, apareceram novas técnicas de treinamento e na medicina veterinária, como a ultrassonografia e a inseminação artificial; os esportes se multiplicavam, e Paulo procurou incorporar tudo o que podia em sua criação", revela o veterinário Marcelo Pessoa, colaborador da equipe Caruana há 22 anos.

A qualidade da produção era sempre testada nas pistas e provava a força do criatório. Paulo e Claudinei competiam pela fazenda em categorias diferentes. A cada prova novas vitórias, títulos conquistados, especialmente nos regionais, e a satisfação dos bons resultados.

Paralelamente, o aperfeiçoamento e evolução do criatório continuaram. As coberturas não eram mais feitas aleatoriamente e linhagens específicas foram se formando. Novos animais passaram a fazer parte do plantel, entre eles matrizes que se provaram excelentes mães quando combinadas com a estirpe de Trouble e Hayward.

Em 1996, mais um grande do Quarto de Milha veio se integrar à Caruana, Shady Leo. O tordilho foi domado e treinado no Haras 4 Irmãos, fez sua carreira reprodutiva com Márcio Tolentini, no Haras ST, e produzia bem. Na Caruana chegou aos 16 anos, auge de sua vida reprodutiva. Já era um ótimo cavalo de Rédeas e Apartação, e Paulo usou-o para cobrir as éguas de sua propriedade.

"Quando o Shady Leo veio pra fazenda, era voz corrente ser ele um cavalo arisco, bravo. Eu já mexia com cavalos há muito tempo e resolvi tentar domá-lo. A tentativa deu certo. Consegui fazer o corretivo e ele nunca mais avançou em ninguém, provando que ele num era nada daquilo que o pessoal dizia. Eu fico feliz de ter convivido e trabalhado com o Shady Leo. Era um cavalo muito bom e que contribuiu muito com o seu sangue para a criação brasileira", comenta Claudinei.

Os primeiros produtos, uma combinação com as éguas Trouble, se revelaram com grande aptidão para as modalidades de Tambor e Baliza. A partir disso, a Caruana investiu definitivamente no garanhão, aumentou ano a ano a sua exposição e os resultados deste reprodutor são conferidos até hoje, com filhos que são primeiros colocados nas estatísticas de trabalho e herdeiros que se destacam por todo país.

III: Laços no Quarto de Milha

Na década de 70, as exposições agropecuárias de Bauru ganharam destaque, movimentando muito a cidade. A criação de Quarto de Milha propiciou esse crescimento e fortalecimento, e criadores e interessados em iniciar suas criações vinham de vários estados para participar e realizar negócios. Com eles vinham as suas famílias.

Nessa mesma época, a Caruana estava dando seus primeiros passos no mercado e as exposições tiverem um papel fundamental para o seu crescimento como criatório. Ali, muitos negócios e amizades foram feitos.

Enquanto os criadores visitavam o recinto, conheciam os animais, participavam dos leilões e julgamentos; suas esposas e filhos passavam o dia no "Rancho do Criador", um espaço criado para receber as famílias vindas para o evento, e que ajudou a dar vigor à exposição. Todos se sentiam muito à vontade e bem vindos.

"As reuniões no Rancho do Criador incentivaram vários fazendeiros a se envolverem com a criação de cavalos. A sede da ABQM era aqui, tinha a exposição e muitas pessoas de fora. Vinha gente do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio Grande do Norte e de outros estados do Nordeste. O Fauzet estava nesse meio e foi promovendo a evolução de seu criatóro", conta Virgínia.

As recordações desta época e histórias colocam no rosto de Virgínia um sorriso, um momento saudosista da vida na fazenda e dos almoços para receber os amigos e realizar a compra e venda de animais.

"Eu me lembro de preparar muitos almoços e jantares na fazenda, servidos à sombra das mangueiras e, enquanto os criadores examinavam a tropa da fazenda, as mulheres trocavam receitas regionais. Claro que havia o interesse comercial, mas também tinha o interesse em fortalecer as relações entre as pessoas, porque quando eles vinham pra cá fazer negócio, também estavam atendendo a um convite da gente e nós queríamos recebê-los bem. Quantas e quantas amizades se iniciaram ou se fortaleceram nessas reuniões. São boas lembranças e muita saudade", relembra.

Sempre muito hospitaleiro, Fauzet conquistou muitos amigos, parceiros e clientes durante esses anos, ampliando as suas relações no meio, ao mesmo tempo em que ele concentrava cada vez mais suas atividades no cavalo e obtinha êxito. Veio a importação em massa dos Estados Unidos, Trouble, Hayward, a participação em leilões, a ampliação da infraestrutura da fazenda, os cruzamentos que permitiram uma produção de qualidade e, como consequência, a consolidação da Caruana como um das maiores provedoras de genética campeã no Estado de São de Paulo e, posteriormente, em todo o Brasil.

Já na década de 90, alçando novos voos, Paulo assumiu a administração da propriedade e idealizou novos projetos para a Caruana. Em 1997, em comemoração aos 25 anos do criatório, foi realizado o 1º Leilão Fazenda Caruana, apresentando ao mercado o resultado de todo trabalho dedicado ao aprimoramento do plantel, bem como os resultados de outros criadores convidados.

Os bons negócios marcaram a primeira edição, e a superação e comprometimento em compartilhar os melhores produtos e genéticas tornaram-se a tônica dos eventos Caruana. De lá pra cá, mais uma tradição foi criada e a cada dois anos é realizado o Leilão Caruana.

A partir de 2000 a Caruana conquistou os melhores resultados, nas pistas, em várias modalidades de trabalho, alcançando a liderança no ranking de criadores da ABQM – o status comprovou mais uma vez a qualidade da carga genética do plantel e foi o primeiro de muitos outros títulos que vieram.

IV: Uma nova fase

Paulo Farha garante o crescimento da Caruana com novos investimentos e parcerias

O reconhecimento da Caruana no mundo quartista e os bons resultados– as altas performances nas pistas e na reprodução – comprovaram a excelência da Caruana em selecionar campeões.

O empenho na criação, então, deu início a uma nova fase: a aquisição de novas linhagens, vindas dos Estados Unidos. Paulo estudou a importação de animais para diferentes modalidades de trabalho e adquiriu garanhões com os melhores pedigrees do país. Hobby Top Cody, Don't Question It, Mister Slydun Pine e Missin James passaram a integrar o plantel Caruana. Juntamente a eles, novos nomes do Quarto de Milha brasileira começaram a ganhar destaque, especialmente El Shady Zorrero, filho do líder de estatísticas Shady Leo.

Com um plantel cada vez mais completo e a boa repercussão do Leilão Caruana, Paulo imprimiu mais dinamismo aos negócios, inovou e agregou às suas atividades diferentes tipos de leilões.

Em 2007, dois eventos passaram a fazer parte da agenda Caruana: o Leilão Virtual Caruana Embriões Novos Campeões, no qual os criadores tiveram acesso irrestrito à genética Caruana, podendo adquirir embriões e os ventres de suas matrizes; e o Leilão Caruana & Cia, que veio para compartilhar os resultados das grandes parcerias criadas.

A partir de 2008, mais um leilão virtual colocou as genéticas Caruana à disposição. Com o Leilão Virtual Caruana Futurity Champions, criadores puderam adquirir as coberturas de todos os garanhões e babies, resultados de selecionadíssimas combinações genéticas.

A repercussão e sucesso dos leilões têm se mantido a cada ano e em cada um deles a Caruana e seus parceiros procuram agregar novidades e garanhões que aumentem a qualidade do plantel nacional como um todo. De 2009 pra cá, novos garanhões vindos dos Estados Unidos, muitos adquiridos em parcerias, passaram a servir a Caruana e ao plantel brasileiro, como Smart Little Jerry, Cats Red Feather, Shazoon, Smart Little Pistol, entre outros que mantêm a produção nacional elevada.

V: O sonho continua

Caruana procura a evolução constante em busca do aperfeiçoamento genético

Hoje, a Caruana tem um plantel de equinos diferenciado e dos mais valorizados no país, produzindo campeões das principais pistas de provas do Brasil nas diversas modalidades.

Em seu currículo apresentam-se alguns dos maiores nomes da história do Quarto de Milha do Brasil, alguns, inesquecíveis que já se foram, mas que permanecem vivos em cada conquista de seus herdeiros de sangue. Muitos dos atuais campeões, matrizes e reprodutores de outros criatórios carregam as linhagens dos grandes nomes que fazem parte desses 40 anos de história.

Mesmo com tantas conquistas e vitórias ao longo dessas quatro décadas de criação, o gosto pela criação e a vontade de vencer continuam, mantidos constantemente com a aquisição de pedigrees e manutenção no manejo dos animais.

"O Paulo é uma pessoa muito focada e está o tempo todo preocupado em melhorar a sua criação. Ele tem os cavalos dele, mas também viaja sempre aos EUA, procurando manter a tropa sempre atualizada, melhorando os pedigrees que ele tem com o cruzamento de novos sangues", revela Marcelo Pessoa.

Atualmente, no plantel Caruana são 600 animais, sendo 135 reprodutoras com as mais diferentes linhagens de trabalho, um time de garanhões líderes de estatísticas e, em média, 150 potros por ano.

O sonho de criar cavalos tornou-se uma realidade, e hoje, a evolução genética em busca do animal perfeito permanece, pois é um gosto, um estilo de vida que persiste há gerações na família Farha.

garanhões

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